• Bibiana Danna

Cuidando da criança interna

Atualizado: 12 de out. de 2020


cuidando da sua criança



Tenho quarenta e cinco anos. Mas nem sempre me comporto de acordo com a minha idade cronológica. Muitas vezes pareço uma criança de três, quatro anos. Assim como a garotinha da fotografia sinto muito medo de olhar para o mundo e enfrentá-lo como ele é. Um medo paralisante ao ponto de sempre buscar um local seguro para me esconder. Sou expert em brincar de esconde-esconde. Escondo-me evitando os embates da vida, os conflitos interpessoais e tudo que puder representar, de alguma forma, um posicionamento, uma opinião ou até mesmo uma atitude que possa ocasionar um distanciamento, ruptura, separação.

Essa fuga de não querer aceitar o que simplesmente é – as pessoas mudam e nós também, por isso um relacionamento que fazia sentido no passado hoje já não faz – me obriga a repetir esse comportamento fantasioso de que eu posso, agindo com passividade e de acordo com as expectativas alheias, preservar os relacionamentos e, principalmente, não desapontar o outro. Não conheço nada mais insano e infantil. E esse esconde-esconde, com o passar do tempo, de aparente “aliado” se tornou o meu maior algoz. Por outro lado, o meu ego é muito habilidoso em mostrar o outro lado equivocado da moeda: “Querida, você sabe que tudo têm os dois lados. Não é bem assim. O seu caminho é a busca da harmonia e respeito nas relações. Se você se mostrar, falar exatamente o que sente e pensa, as pessoas irão se ferir e o relacionamento acabará. O que custa ser tolerante nesse mundo tão intolerante?” Isso se repetia toda vez que o ego percebia que poderia haver uma mudança de comportamento da minha parte. Ele não aceita que eu me liberte da crença aprisionante e infantil de tentar preencher as expectativas de todos o  tempo todo em nome de um bem maior: “a falsa estabilidade das relações mantida por um alto e infrutífero preço exigido pela dependência emocional que então se estabelece.”

O mais cruel disso tudo é que o que eu imaginava ser a expectativa alheia, na maioria das vezes para não dizer sempre, estava bem longe do que o outro esperava. Eu via no  outro uma projeção de mim, das minhas questões,  meus medos e vazios. Com o tempo, fui percebendo que o meu jeito estudado de ser não fazia bem a ninguém, muito menos a mim. Só que sou teimosa e não queria aceitar a realidade. Era viciada nas feridas da minha criança interior que eram abertas por mim quando estavam próximas de cicatrizar. Um comportamento doentio, desequilibrado que adoeceu a minha alma, meu espírito e, finalmente, o meu corpo. Fui até o limite do limite. Sabia que tinha que parar com tudo e recomeçar.

E o recomeço veio como uma avalanche que não avisa a hora que irá chegar. Surgiu como uma força da natureza, reprimida há muito tempo, e abalou as bases do meu castelo construído na areia. Fui obrigada a abandonar o meu baldinho colorido, as pazinhas, estrelinhas do mar e peixinhos, e vi as minhas ilusões sendo soterradas pela neve. A partir desse momento, o meu corpo e mente estavam em total desequilíbrio suplicando por ajuda e, principalmente, por um olhar diferente acerca da vida e dos relacionamentos que a envolvem.

Minha mãe, como em vários momentos da minha vida, me estendeu a sua mão amiga e me levou ao pronto socorro. Chegando lá, não pude ser atendida, perdemos a carteira que tinha o cartão do plano de saúde. Estávamos de saída, quando o meu filho nos socorreu, era o único que tinha dinheiro para pagar o estacionamento para sairmos do hospital. Eu estava cada vez passando mais mal e, quando entrei no carro, só piorei. Fomos para a casa da minha mãe para decidirmos o que iríamos fazer. Ela arrumou o sofá da sala para mim e dormi de tanta dor que estava sentindo. Quando acordei, ela me perguntou o que eu queria fazer. Eu disse que não voltaria ao pronto socorro pois não iria adiantar. Foi então que lembrei das várias indicações que ela havia me dado de médicos que adotavam nos seus tratamentos uma visão holística. Pronto, pensei, esse era o início do caminho para o meu renascimento.

Sou uma pessoa que não acredita em acasos, coincidências, sorte ou azar. Creio que tudo é como tem que ser e mais que isso: tem uma razão de ser. Nada acontece na nossa vida sem um motivo, um para quê e um por quê. Peguei o celular e encontrei a lista com os médicos. Quando a minha mãe me mandou os profissionais de cara escolhi a Doutora Elizabeth. A decisão foi feita guiada pelo coração (intuição), mas também pela razão por saber que na lista todos eram médicos reconhecidos e muito bons. E o melhor: escolhidos pela minha mãe. Poderia ter indicação melhor?

Era uma segunda-feira, meio da tarde. Minha mãe ligou e conseguiu uma hora no mesmo dia no começo da noite. E tudo se encaixou perfeitamente como sempre acontece quando é para ser. Chegamos uns quinze minutos antes do horário marcado e, assim que entrei no consultório, senti uma paz – que só se encontra em lugares de luz – que me acalmou e me deu a certeza que estava no lugar certo, na hora certa e com a pessoa certa. A doutora Elizabeth abriu a porta, me deu um abraço caloroso (o poder dele é amplo: ajuda a curar gripe, mal estar e dor), sentou-se em frente a mim e me olhou. Na frente dela estava uma pessoa, sofrendo e com uma história. Enquanto eu falava com ela senti presença e disponibilidade. Minha cura e renascimento definitivamente tem um marco zero: meu encontro com essa pessoa especial, disponível e sensível, a doutora Beth.

Ao longo do caminho tive muitos altos e baixos, mas sempre contei com a companhia da minha médica do corpo e da alma. Em uma de minhas muitas visitas ela me sugeriu adotar a terapia holística com a Débora. Conversamos um pouco sobre o assunto,  peguei o cartão dela e senti que esse caminho seria uma ferramenta importante nesta minha nova vida. Não tive qualquer dúvida em aceitar a sugestão, na verdade, topei na hora, afinal de contas o meu recomeço estava sendo difícil e sabia que sozinha não atingiria os resultados desejados.

Assim que saí da consulta marquei uma data para me encontrar com a terapeuta. Era uma segunda-feira, meio da tarde, quando conheci a Débora. Antes de entrar no consultório, tirei os sapatos e senti como se estivesse entrando num lugar de oração. Uma gratidão tomou conta de mim por ter encontrado duas excelentes profissionais que estão me ajudando a perder o medo e a me libertar dos antigos padrões. Elas são mulheres especiais, não só por serem competentes no que fazem mas, acima de tudo, por terem a habilidade rara de olharem para o ser humano de dentro para fora. Acredito, sinceramente, que a chave para superar os nossos medos está no autoconhecimento, ou seja, nessa jornada sem fim de olhar para dentro em busca das respostas para os questionamentos e, com isso, iniciar o projeto de construção de uma vida mais equilibrada e feliz.

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