• Bibiana Danna

Humanos nada humanos

Atualizado: 25 de out. de 2020


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Saí de casa às quatro da manhã, como de costume. Parada vazia, céu escuro, chuva torrencial e um frio de gelar a alma. Consulto o relógio a cada três minutos e nada de o ônibus passar. De repente, o vejo chegando. Levanto e aceno repetidas vezes para ele parar. O motorista me vê e passa direto, apesar de a lotação estar vazia.

Em pé estava. Em pé fiquei. Antes seca, agora molhada dos pés à cabeça. Respirei fundo e tentei colocar em prática as técnicas de respiração que aprendi. O meu fracasso em não conseguir manter o controle me desorientou ainda mais.

Resolvi sentar e esperar a próxima lotação. Abri a bolsa, remexi mil vezes até encontrar o celular para avisar que iria chegar atrasada ao trabalho. Qual a minha surpresa? Estava sem bateria. Pensei: o que mais pode me acontecer?

Um estranho, puxa a bolsa, arranca o celular da minha mão, leva o meu tênis, casaco e sombrinha. Foi tudo tão rápido que a agressão mais pareceu ser uma resposta bizarra à minha pergunta.

Olhei em volta e estava sozinha. Tive uma crise de riso. Em seguida, lágrimas pesadas caíram dos meus olhos. Não sei quanto tempo fiquei assim. O relógio parou e tive a impressão de sair do corpo.

Fiquei em silêncio sem saber o que fazer. A chuva estava mais forte e o frio se intensificou. Por alguns segundos minha mente ficou parecendo uma parede branca. Senti uma sensação de bem-estar e muita liberdade. Acho que até meditei!

Tudo estava indo bem até eu começar a raciocinar… parede branca… bem-estar… meditei? Quando achei que tudo estava perdido, escutei uma voz interior. Era suave, cadenciada e muito doce e me fez a seguinte pergunta:

– Você já reparou que os humanos estão ficando cada vez menos humanos?

– Há um tempo venho refletindo sobre isso. Hoje, com tudo que me aconteceu, não sei bem o que pensar. Devolverei a sua pergunta sob um outro prisma: será que os humanos não estão ficando cada vez mais humanos?

– Boa pergunta! Mas quero que você me dê a resposta.

– Bom… acredito que são as duas coisas juntas e misturadas. Ser humano é ter os dois lados: o bom e o ruim. A manifestação de um ou de outro dependerá das experiências vividas e de como foram processadas.

– Sim, mas está faltando um outro elemento muito importante.

– Qual?

– O estado de espírito da pessoa no momento que o fato acontece.

– Não entendi.

– Sua experiência de hoje te mostrou o seu lado humano nada humano ou humano muito humano?

– O humano muito humano. Ao longo da nossa conversa, consegui me colocar no lugar do estranho que me furtou. Percebi que ele é um humano muito humano por se portar de maneira desumana devido às vicissitudes do seu dia a dia. Se eu não tivesse feito esse exercício, provavelmente, te responderia que ele é um humano nada humano e ponto final.

Quando dei por mim já estava no portão de casa. Não sei como cheguei até aqui. Só sei que a experiência de hoje me fez ver as pessoas com outros olhos: todos somos humanos muito humanos e, por isso mesmo, muitas vezes, nos comportamos como humanos nada humanos.

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